← Back Published on

Alguns geladinhos e uma lição para a vida

Esses dias reencontrei um colega que trabalha como motorista de ônibus. Vou chamá-lo de Hamilton.

Ele tem um filhinho de quase 3 anos, o João. João é o segundo, mas foi o primeiro. Infelizmente, Hamilton e a esposa perderam seu primeiro filho em decorrência de um aborto espontâneo.

Anos atrás, na semana em que João nasceu, Hamilton não conseguiu folgar mais do que três dias. Precisou retornar a linha Interior-Capital. Eram quase 9h quando embarquei no ônibus.

Naquela manhã, Hamilton estava diferente. Brilho no olhar, sorriso no rosto, bom dia a todos que embarcavam. A alegria dele era genuína, de transbordar o coração. Ele precisava compartilhá-la com todos.

Sinal vermelho. Ao lado do semáforo, um senhor vendia dindins (geladinhos). O dia estava ensolarado. O ônibus abafado. “Quanto é a caixa de dindin?”, perguntou Hamilton. “Cinquenta”, respondeu o vendedor. “Cinquenta? Vou levar tudo!”.

Sinal verde. O coletivo prosseguiu. De repente um grito: “Quem quer dindin?”. Os passageiros se entreolharam. Os mais tímidos levantaram a mão, outros disseram em coro: “Eu!”.

Hamilton pediu que um voluntário distribuísse a sobremesa gelada entre os passageiros. O ônibus não estava lotado, consequência: todo mundo repetiu e ainda sobrou. Todos agradeceram a generosidade do motorista.

Naquele dia, percebi que os gestos mais simples de bondade carregam consigo uma alegria verdadeira, fruto de um coração grato que, em meio aos infortúnios da vida, decide seguir em frente.

Por Thaynara Portácio